Wednesday, October 04, 2006

Mundo cão

Vindo trabalhar, no curto caminho entre o estacionamento e o prédio, um senhor me pára e pede informações. Em termos de localização, estamos próximos a Ponte do Morumbi e ele quer chegar no Jabaquara (muito longe), especialmente quando o sujeito me diz que irá até lá caminhando. Não entendo nada de distância, aliás, nem sei como me deixaram pegar a carteira de motorista pois se me perguntar se uma determinada distância é 1 ou 10 metros, não sei responder corretamente.

De qualquer forma, segundo o narrador, ele veio com uma proposta de trabalho de motorista em SP, mas ao chegar no lugar, acharam-no velho (embora ele tivesse qualificação - ele chegou a me mostrar sua carteira de trabalho e de motorista).

Para tentar encurtar a história, ele está sem dinheiro, vagando há dois dias pela cidade, sem comer, sem direção e precisava chegar no Jabaquara e ir arrecadando dinheiro até lá para voltar de ônibus a sua cidade.

Fico pensando como qualquer pessoa sai de sua casa, de sua cidade natal em busca de trabalho, por mais promissor que seja, e não leva o mínimo de dinheiro, roupa ou contatos necessários para uma sobrevivência digna? Até porque mesmo que o emprego fosse garantido, demoraria um certo tempo até receber o salário, não é mesmo?

Mas acabo pensando (e talvez seja a única forma de eu entender tudo isso) que eu sou uma minoria nesse país. Uma pessoa que teve o mínimo de educação que permitiu que eu raciocinasse e soubesse me posicionar de uma determinada forma frente a inúmeras situações adversas ou não. Que quando alguém me oferece um emprego, eu analiso a proposta e tomo todas as providências para caso não consiga, não sair dessa pior do que cheguei. Que eu não sou ingênua o suficiente para pensar que uma oferta de emprego é garantia, que não preciso levar nada além da minha boa vontade para sobreviver.

Enquanto grande parte das pessoas desse mundo cão não foi formada (educacionalmente, digo) para ter uma capacidade de raciocínio mínimo, cuja ingenuidade beira a ignorância (e não é nada belo e poético como retratado em filmes nacionais), e cuja vida precisa tanto melhorar que se jogam em propostas vazias e em ciladas.

Só torço para que esse senhor chegue bem ao seu destino final, e saia dessa mais descolado e informado de como é o mundo real.

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